five years after the decade started
e assim, chegamos ao meio da década. cinco anos mais e esta acabará, mais uma. puff. por várias razões, talvez por também eu ter nascido a meio de uma década — a de noventa —, e também num ano terminado em cinco, o final deste deixa-me um pouco emocional. há algo de especial no meio das décadas, uma nostalgia inerente que faz com que pareçam feitas para ser narradas, estávamos a meio da década. metade depois de ter começado, metade antes de terminar. um lugar liminar, de passagem, um beiral de porta posto ali entre dois tempos, às vezes mais diferentes, às vezes não tanto assim. quando nasci a meio da década de noventa, o que separava o seu início daquilo que seria o seu fim e o início da seguinte era gigantesco, mais vinte anos do que dez. um fosso abismal que por vezes parecia intransponível; não ajudava que com o fim da década viesse o fim do século e do milénio, e, muitos achavam, o fim do mundo. não estou aqui para julgar ninguém porque quando já no final da década, quando me chegou às mãos uma revista que falava da possibilidade do fim do mundo, eu entrei em pânico e, numa decisão curiosa, cavei um buraco no canteiro das rosas dos meus avós, enterrei o exemplar bem fundo, e voltei a tapar o buraco, esperando assim travar o apocalipse. quando chegou o ano novo, lembro-me que estava com o meu pai no carro, ele estacionou e disse-me que ia à farmácia, do outro lado da rua. estava frio, eu podia ficar, ele ficava a ver-me pela janela. eu saltei para fora como se tivesse molas, os olhos a picarem-me com as lágrimas: era quase meio dia, hora para o mundo acabar com certeza, e eu ia ficar ali e morrer longe do meu pai?
estamos habituados a celebrar fins e inícios, mas os meios são mais difíceis de agarrar, escorregadios entre os dedos, instáveis, acreditamos que os prendemos dentro de punhos fechados mas quando os abrimos não está lá nada. e ainda assim, há algo de intrinsecamente melancólico neles. algo nos diz que eles importam, mesmo que não nos explique porquê. estes pontos médios, à mesma distância do começo e do final, são como um posto de controlo, uma estação à beira da estrada, uma última verificação antes de continuarmos caminho. queremos mesmo continuar? o tempo passa lentamente até lá chegarmos; esgueira-se em silêncio depois de nos levantarmos para sair. tal qual como nas viagens de carro com os nossos pais ou de autocarro com a escola, que demoravam uma vida até estarmos no destino, mas cujos retornos faziam as mães ou as professoras, dependendo, exclamar, e já cá estamos!, e as nossas bocas abrirem-se em espanto, de todas as vezes, a voltar é sempre mais rápido! mas o tempo em que lá estamos de facto, seja na praia ou no museu ou no jardim zoológico ou no purgatório do meio da década, é mais indefinido, com bordas picotadas em vez de linhas contínuas, e escorre pelos cantos e fissuras para lugares impossíveis de encontrar, derrama todo para que nunca mais o vejamos. e ainda assim, por muito lamacentos e moles que sejam os meios, é a partir deles que podemos finalmente olhar tanto para trás como a frente, ver que metade já foi, metade está por vir. o meio da década é enrolado na maldição da liminiaridade — não está a começar mas também não acaba ainda, não é fatal o suficiente para ser nomeado mas também não insignificante para ser ignorado. como todos os lugares limiares, é um estado transitório. mas, como todos os estados transitórios, não é apenas isso. tal como a adolescência não é apenas um corredor entre a infância e a vida adulta, mas sim um estado independente, com importância e significados próprios, ideologias e sistema de crenças particular. escrevo isto e lembro-me de um dos trabalhos que fiz para a faculdade, sobre um dos meus livros favoritos, The Virgin Suicides (Jeffrey Eugenides, 1993) e a subsequente adaptação cinematográfica por Sofia Coppola (1999) e da reflexão sobre a adolescência, em particular a girlhood, como uma edificação autónoma por si só — no extremo, com tantas particularidades e encarnamentos dentro do mesmo corpo, da mesma pele, da mesma pessoa, em tão poucos anos, que seria pesada o suficiente para ‘justificar’ o suicídio das irmãs (como escrevi na altura, ‘elas não são só adolescentes que se matam, mas matam-se porque são adolescentes’).1
no início de uma década, o tempo ainda é imaginação: pode vir a ser tudo. No fim, o tempo já foi fixado em narrativa: foi isto. mas o meio é o lugar onde a imaginação cede — e o real se impõe. a meio, certas coisas já aconteceram. outras, percebe-se então, nunca acontecerão. o futuro deixa de se estender indefinidamente; começa a ter margens, contornos, uma forma. a década ganha peso, matéria, consequências. por isso, os meios são também o primeiro momento de encontro com a perda. nos inícios, o futuro cintila como pózinhos encantados à nossa frente, e ainda tudo pode ser imaginado e, portanto, alcançado. a meio, já a primeira parte se foi, e já não temos todo o tempo pela frente, mas só o bolo meio comido. na marca dos dentes está uma certa inevitabilidade agora, irreversibilidade. os meios revelam a finitude do tempo, por isso são tão moles ao toque, frágeis, pomos os dedos neles e logo eles se enterram por completo. o futuro já não é tão hipotético assim, e, cruelmente, nem os sonhos e promessas falhadas do início da década. o que está para vir parece sempre mais curto do que já passou, e pela primeira vez, talvez tenhamos de aceitar que, se calhar, não teremos todo o tempo, tempo para tudo, tempo suficiente. se 1995 caiu no colo do otimismo do pós-Guerra Fria e, ao mesmo tempo, foi agarrado pelas gadanhas do temor do fim do milénio, 2025 foi embalado pelas mãos trémulas do mundo do pós-pandemia, guerras e genocídios, fascismos velhos e novos, e um futuro incerto. a nível global, mas também individual, poderá ser o momento em que nos apercebemos que as coisas não se tornaram exatamente naquilo que esperávamos, e que talvez tenhamos de repensar aquilo que esperávamos, e assim recalibramos as promessas com a realidade de pano de fundo. em 1995, o futuro erguia-se como uma abstração imensa, quase metafísica: o ano 2000, o próximo século, o próximo milénio. em 2025, o futuro parece mais curto, mais compacto, mais denso — não porque menos coisas podem ainda acontecer, mas porque demasiadas já aconteceram.
a verdadeira tragédia do meio da década não é algo ter terminado — não ainda. mas algo acaba: a fantasia de que ainda podemos começar do zero. o fim ainda não chegou, e, no entanto, o sentimento de perda e de luto já nos come as entranhas: é como se fôssemos apanhados a dançar num casamento pelo diabo que nos diz ao ouvido que dali a dez anos se assinarão os papéis para o divórcio. o vazio na barriga de 1995 é diferente do de 2025, no entanto: a meio da década de noventa, o ponto sem retorno tinha a escala de um mundo inteiro. não havia caminho de volta, e a grandeza do que se aproximava fazia tudo parecer desmesurado, quase cósmico. hoje, a meio da década vinte do século XXI, a irreversibilidade é outra coisa. não vem de fora, não ocupa o céu. instala-se por dentro, e é por isso mais difuso. a criança do final da década de noventa saiu do carro para ir ter com o pai porque tinha sabia do que ter medo — de que o planeta se rasgasse a meio e tudo ficasse escuro. a adulta de trinta anos, em 2025, não sabe bem do que ter medo — e não só; não só tem medo do que pode acabar, mas medo do que será se nada acabar, se continuarmos assim.
2025 é, para mim, a encarnação perfeita de um meio que é um início e um fim em si mesmo; um corpo emancipado de todos os anos que vêm antes e dos que virão depois, tal como a adolescência é um bicho separado da infância e da vida adulta, com coração e estômago separado delas, ainda que ainda a balançar no mesmo cordão umbilical que as atravessa. no final de 2024, um dos anos mais violentos da minha vida, e tentando ver para lá do nevoeiro todo que me entrava pelos olhos, fiz (céticos, altura de se afastarem se for para criticarem) uma consulta de astrologia com a Lurdes, uma senhora amiga da mãe de uma amiga, e uma leitura de tarot com a Sandra do SØPHIA ASTAROT2 (que recomendarei até ao final da minha vida!). aprendi, com elas, que em 2025, e até fevereiro de 2026, viveria o meu primeiro retorno de Saturno. saturno é o senhor do tempo, disse-me a Sandra, e a ele “compete ensinar-nos lições, mostrar-nos e dar-nos estrutura, resiliência e disciplina para perseguirmos aquilo que precisamos”. o regresso de Saturno, trinta anos (!) após o nosso nascimento, “marca uma fase importante de aprendizagem e ultrapassagem de limites, [...] um renascimento que se faz acompanhar por ‘dores de crescimento’, [...] um período de novas responsabilidade, de incertezas, e de crescimento. de uma nova consciência de nós próprias.” quando lhe pedi para me ajudar a ver o que estava para vir, ela deu-me como palavras-chave “auto-expressão”, “criatividade”, “comunicação” e “imaginação”, todas elas relacionadas com o meu “brilho profissional” (descobri, também, que o meu sol em capricórnio está na casa 5, o lar da criação e da criatividade). disse-me que via novos projetos, colaborações e caminhos nesta área.
o mesmo me disse a Lurdes, de rosto inclinado para mim, olhos muito abertos, aqueles olhos que parecem ter visto o mundo todo e o ter engolido, o cabelo brilhante a iluminá-la, isto depois de me ter dito, com a honestidade e preocupação de uma tia, este ano, 2024, vais sofrer até ao fim. mas o próximo, vai ser o teu ano. tudo vai mudar. e então, 2025 chegou, e depois de ter passado os primeiros meses meia escondida numa cova com medo de pôr os pés de fora e afinal tudo estar igual, a vida mudou mesmo. no ano do meio da década, a minha existência como a conhecia cessou, e, simultaneamente, a existência pela qual sempre esperei, começou. talvez, de forma simples, o que a Sandra e a Lurdes viram quando puseram as cartas em cima da mesa ou abriram o mapa astral, tenha sido o bom e o mau. o fim e o começo. a sorte e o azar. todas as cartas e estrelas a dizerem as duas coisas, sem que nenhuma delas estivesse errada. saiu-me tudo, este ano. como só pode acontecer em anos assim. ambas me tinham dito, também, que o amor estava em 2025. eu tinha os meses guardados num papel, guardado no diário, guardado numa gaveta, e, quando abril chegou, eu sabia. não foi preciso explicarem-me mais nada nem lançar mais perguntas ao destino porque o destino estava todo contido ali mesmo, no Alejandro. e a vida que falta viver, toda ela à minha frente, é toda ela uma vida com ele. e se o apocalipse ameaçar chegar em 2030 como ameaçou chegar em 2000, bem, então leva-nos aos dois (neste momento, ele, ao meu lado, acrescenta que o apocalipse não nos conseguirá aguentar — e eu, que acredito nele até ao fim, decido acreditar também agora).
em setembro, soube que tinha sido vencedora da bolsa literária da penguin. deram-me a notícia quando voltava a casa depois de um trabalho que me sugava a alma e tinha os sacos e os sonhos todos caídos aos pés. disseram-me que podia escrever um livro. a Carolina de 2003, que, entretanto, já tinha superado o medo do apocalipse e escreveu no diário, “um dia vou escrever um livro a sério” pulou e pulou e pulou, lá no sítio onde ela está. lembrei-me da Sandra de novo. a certa altura, ela perguntou-me, porque as perguntas são por vezes as melhores respostas, sobre aquilo que me faria sentir “like a child again”. disse-me que tinha de ir por aí. e não é que tinha razão? em 2025 fiz trinta anos, e no cimo desta montanha onde a montanha-russa da década parou, e, com tantas nuvens que passam por mim e fazem questionar se consigo fazer o que sempre quis fazer (engraçado como é tão mais fácil ter sonhos quando eles são só sonhos; fazer deles filhos de corpo e alma é mais custoso!), sinto que finalmente estou a fazê-lo pela Carolina de antes. nem sempre é fácil vê-lo — ninguém sabe, e eu não sou exceção, o que a segunda metade do bolo nos traz. ninguém sabe se a estrada continua. ninguém sabe se o medo que vem depois de 2025 será assim tão diferente do que veio depois de 1995. mas, e como ouvi a meio do ano — um meio dentro de um meio —, “you’re sure to get somewhere — if you just walk long enough”.3
feliz 2026!
“Unlike the conventional ‘girl’ films, which treat the state of ‘girlhood’ as merely a transitional stage from innocently ignorant childhood to mature womanhood, Coppola converges her attention to this particular stage of ‘girlhood’. She treats it as an independent state, one worthy enough to receive the dedication of this entire film. For instance, the Lisbon girls do not go through the process of maturity from ‘ignorant innocence’. [...] ‘girlish’ femininity manifested in conventional girl films is marked by a collective performance of ‘ignorant innocence’ – a display of immaturity or vanity. It is different in The Virgin Suicides. In the first place, the heroines in the film rarely exhibit such childish qualities, and their suicides allow them to embody ‘girlish’ femininity from the beginning to the end of the film. Equally striking is the film’s complex construction of girlish femininity itself. Femininity has been understood and presented through a set of binaries in western culture. Such binaries often evolve around two (almost opposing) imageries of femininity including Madonna/Whore (Ross and Nightingale 2003: 80), Rapunzel/Medusa (Ofek 2009: 104) and Ophelia/Girl Power (Gonick 2006: 15–16). The former of each of these dichotomous paradigms embody purity, innocence and docility while the latter types symbolize a sexually mature, dangerous side of femininity. Rather than placing the girls on either side of two extreme poles of femininity, I would argue strongly that The Virgin Suicides fuses and merges the antithetical poles of fragile and assertive girlish femininity (Monden, 2013, 141).
identifico aqui o substack dela, mas, como verão, ela mudou de plataforma, por isso, se quiserem acompanhá-la, subscrevam aqui.
adaptado da conversa entre o Cheshire Cat e a Alice (in Wonderland). Alice começa por perguntar ‘would you tell me, please, which way I ought to go from here?’, ao que o gato responde ‘that depends a good deal on where you want to get to’. quando ela diz ‘I don’t much care where—as long as I get somewhere’, o animal termina, ‘oh, you’re sure to do that, if you only walk long enough.’






Que bonito!!🩷🩷
el apocalipsis nos tiene que tener miedo a nosotros!!! que este año sea un principio, un final y todo lo que quiera llegar, i love you, babe <3