sleep well, beast
numa das noites mais recentes, pela primeira vez em quase uma semana, consegui dormir sem ser arrancada do sono por um qualquer animal noturno vergado sobre mim, a respirar-me para cima, com o hálito a entrar-me pelos olhos, pelo nariz, pela boca. acordo ao lado dele e abro os olhos com hesitação, não vá estar enganada e a luz que vislumbro através das pálpebras fechadas não passar de uma invenção da minha mente, e o mundo estar ainda escuro e frio e ele dizer-me, ‘ainda são só quatro da manhã, babe.’
mas abro os olhos, por fim, e o alívio chega: consegui dormir. são nove e meia, a noite, enfim, terminou; está acabada e encerrada. é curioso como, em fases assim, o sono perde os seus dons mais simples — regeneração, repouso, prazer — para se metamorfosear em algo totalmente diferente: o resultado de um esforço, uma conquista, uma questão de sobrevivência. dormir passa a ser prova de existência. garantia de que o nosso corpo macerado ainda se pode render, ainda confia em si mesmo o suficiente para deixar que desapareçamos temporariamente. não é, não mais, sobre sonhos ou descanso, mas sobre resistência — sobre completar a travessia a noite sem ter de colar os olhos no teto uma única vez, sobre emergir da grande guerra sem cortes frescos. e nestas alturas, começa a surgir o medo de nos deitarmos, porque a ideia de acordar a meio da noite e enfrentar o desespero de tentar ser levado, outra vez, nos braços das deusas é aterrorizador. o relógio está enfeitiçado: são sempre três, quatro, cinco da manhã — ele nunca concede a bênção de mostrar outro número, um mais alto, mais redondo; nunca oferece o privilégio de nos permitir levantar e deixar a noite pesada para trás. não. é sempre demasiado cedo.
por isso tentamos. tentamos, e é como se tentássemos negociar com o diabo. ‘por favor, deixa-me dormir’, sussurramos entre dentes cerrados, enquanto a noite azulada e febril começa a devorar-nos vivos, devagarinho, aos pouquinhos, começando pelas partes mais pequenas, começando pelos dedos dos pés.
com os anos, experimentei diferentes estratégias, escondi comprimidos distintos debaixo da língua, troquei as súplicas, prometi novos sacrifícios a quem os aceitasse. em criança, quando tudo começou, rezava — lembro-me de murmurar as palavras debaixo do cobertor, de percorrer todas as orações que sabia, todas elas enroladas numa só como se uma novena se tratasse, e de acrescentar, no fim: ‘por favor, Deus, deixa-me adormecer’. prometia coisas em troca: ‘se me fizeres voltar a dormir, vou ser uma melhor irmã, filha, neta e amiga, não vou dizer mais asneiras, vou estudar mais e ir à missa todos os domingos’. as coisas que atiramos ingenuamente para o ar, como se deus tivesse nas mãos um bloco de notas para contabilizar as oferendas. temos tão pouco nessa idade, mas, ainda assim, deixamos o cesto aos pés e pomos tudo à sua disposição. tentamos.
aperceber-me-ia mais tarde de que esses foram alguns dos meus primeiros e mais honestos atos de fé. eu acreditava que o sono podia ser concedido, que era algo que me podia ser dado. então, não tinha ainda aprendido que não se pede, mas que as deusas do sono têm de ser enganadas, subornadas, corrompidas. e continuava. quer se fale com Deus ou com o Diabo, oferece-se sempre algo em troca. às vezes nem nos apercebemos de que o fazemos; noutras, a transação já foi feita há muito. talvez já tenhamos entregado a alma numa barganha antiga, mas, como frequentemente acontece nestas situações, nos tenhamos esquecido do que fizemos e continuamos, embalados, a repetir as mesmas palavras todas as noites, na crença baloiçante de que poderão mudar a profecia. e, no entanto é exatamente assim que permaneceremos: sem alma, sem sono, perpetuamente à espera.
depois, começou-se a contar — ovelhas, números, palavras. a certa altura, torna-se automático e mecânico, como eram antes as orações, e quando damos por isso, já contámos mais de duzentos animais e estamos com os olhos tão abertos como antes, agora diante de uma procissão de criaturas brancas e lãzudas. quando a minha irmã nasceu, em 2001 — no mesmo setembro e colada ao dia em que as torres gémeas do world trade center ruíam diante dos nossos olhos e bocas incrédulas — passei semanas sem dormir. as televisões de todo o mundo repetiam as mesmas notícias, uma e outra vez — isso foi antes de termos aprendido, enquanto sociedade, que há coisas que não devem ser vistas, pelo menos não repetidamente, e que as representações mediadas da violência e do sofrimento humano se tornariam numa das mais gulosas armadilhas alguma vez inventadas pelo homem. na verdade, quando percebemos isso — ou começámos a perceber — já era tarde demais, e estávamos já mergulhados no poço de cobras onde as imagens piscam ao mesmo ritmo que pestanas, e todos nós havíamos já tornado tão dessensibilizados que talvez só compreenderíamos o que víamos se fosse a nossa própria cabeça, o nosso braço, o nosso bebé, o nosso povo, a ser esmagado. eu, talvez curiosa demais para o meu próprio bem, deixei-me engolir por aquelas imagens; ficaram queimadas para sempre no meu cérebro.
esses dias chegam-me agora como se de um sonho de febre se tratassem — vejo-me com o meu pai no hospital, horas e horas à espera de que a minha irmã nascesse, um corredor comprido que na memória é agora bege e mal iluminado; as velhas televisões presas à parede a chiarem em uníssono, o telemóvel do meu pai a tocar de vez em quando. um dia sufocante de setembro, uma mistura de cheiros: o odor esterilizado, cru e a cobre dos hospitais misturado com o calor pesado, seco, quase a arder, daquele verão. horas antes, no carro, eu quase causara um acidente — abri a janela e a minha malinha da barbie, recém-comprada, fugiu-me das mãos, sugada por uma qualquer boca gigante, e atirada para o meio da autoestrada. o meu grito petrificou o meu pai ali mesmo; as mãos ferraram-se no volante até ficarem brancas; eu repetia que ele tinha, tinha, tinha de parar, porque eu deixara cair algo. lembro-me do horror a atravessar-lhe os olhos, do carro a deslizar um pouco, e, de ele, quando percebeu que não havia tragédia nenhuma, me dizer, na sua voz calma mas séria: ‘não voltes a fazer isso, Carolina, íamos tendo um acidente’. foi nesse dia que aprendi que não se pode parar nas autoestradas, independentemente do que for esmagado contra o chão. lembro-me de cruzar as mãos, acenar em silêncio, e sentir as lágrimas a picarem-me os olhos. ao longo das semanas que se seguiriam, sentiria que me afogava num mundo novo onde já não era filha única e os meus pais tinham um bebé — o que, de alguma forma, mesmo para o meu cérebro de seis anos, era ainda mais impetrável e indecifrável do que o facto de eu ter uma irmã. os meus pais, pais de uma nova filha, pais de novo, pais juntos. aí estava pendurado o verdadeiro enigma, o indizível que todos pareciam ter esquecido entre peluches novos e baby-grows amarelos: como é que eles tinham tido um bebé. é certo que eles ainda estavam juntos nessa altura, e assim continuariam por mais de uma década, mas algo não fazia sentido. sentia-me a afogar na nova domesticidade da casa, numa imagem sobre-exposta onde aviões continuavam a cair e prédios continuavam a arder e as pessoas falavam de guerra, e eu só conseguia pensar na mala da barbie colada ao alcatrão negro, a derreter sob o sol impiedoso, esmagada uma e outra vez por camiões e carros, ambulâncias a gritar no caminho para o hospital — como nós íamos. tudo aquilo, de algum modo, parecia símbolo de algo maior — os meus olhos grandes prostrados na janela a verem aquilo a ficar longe, longe, cada vez mais longe, e o meu pai a dizer-me, pela primeira vez, ou pela primeira vez de que me lembro, que não. certas coisas deixamos cair para nunca mais voltarem às nossas mãos — a inocência, a paz, a ilusão da proteção e do sono.
depois desse dia, e durante meses, tudo o que eu desenhava eram edifícios a colapsar em chamas e aviões a cair do céu. os meus pais, cada vez mais preocupados com os meus terrores noturnos, os ataques de pânico e de choro, o medo paralisante de andar pela casa depois de escurecer. então, eu tinha pavor das pequenas luzes vermelhas do standby dos aparelhos domésticos, e, para atravessar os dois metros que separavam o meu quarto do dos meus pais – distância aparentemente inócua mas que me obrigava a olhar para a sala de estar, nem que fosse de relance, para esse fosso peganhento, onde eu só conseguia ver olhos e olhos pregados em mim – pedia ao meu pai que me viesse buscar à minha porta. surgia também, nesta altura, um medo ruminante do diabo, uma figura que se havia imiscuído nos meus sonhos e estava sempre à espreita, todo vermelho, com olhos negros e brilhantes como pérolas. grande parte das noites daqueles anos de infância foram consumidas pela mesma história meio alegórica, meio parábola, em que o Diabo vinha até mim e me roubava o leite até eu morrer de fome. dias e dias, meses e meses, eu a acordar suada e chorosa, a repetir ‘o diabo quer roubar-me o leite’, perante as caras dos meus pais, distorcidas de incompreensão.
foi então que fui, pela primeira vez, a uma consulta de psicologia. foi então, também, que a minha irmã, ainda com poucas semanas de vida, se mudou para o meu quarto — o berço dela ao lado da minha cama; ela, completamente inofensiva, com as mãozinhas pequenas e rechonchudas a balançar no ar. alguém (o médico ou a terapeuta, já não sei) sugeriu que tal poderia fazer-me sentir menos sozinha e mais protegida. assim se fizeram as mudanças e assim, pela primeira vez mas não, certamente, pela última, a minha irmã mais nova salvou-me. e até hoje, eu com trinta, ela com vinte e quatro anos, sempre que ficamos em casa dos nossos pais, partilhamos o quarto; as camas lado a lado, o mais próximas possível.
depois disso, e no que toca a dormir, mais de vinte anos imperturbados se estenderam. anos de paz. uma paz que vem de não notarmos que o nosso corpo existe. fiquei conhecida por ser alguém que dormia em qualquer lugar: autocarros, carros, aviões, sofás, cadeiras. alguém intocável pelo colapso. depois, o ano passado aconteceu, e, com ele, o meu corpo e a minha mente dobraram-se sobre si mesmos. continuava (e agora mais do que nunca) com sono o tempo todo — tão exausta que fazia três sestas por dia, uma a meio da manhã, outra à hora de almoço, outra à tarde — mas as noites haviam-se voltado contra mim. deixei de conseguir dormir quando o mundo escurecia. não havia causa aparente — nenhum pensamento obsessivo antes de deitar, nenhuma ansiedade visível. mais preocupações, claro, mas mesmo assim. a ausência de uma razão externa levou-me a acreditar que o problema era eu; que eu era a razão pela qual não dormia. que o corpo, o meu corpo, era a sua própria armadilha – uma besta carnívora e masoquista a devorar-se a si mesma, de dentro para fora.
foi então que comecei a entender: a insónia não é apenas ausência de sono, mas excesso de corpo. quando não se consegue dormir, a pele sente-se demasiado, os ossos ganham peso, parece que nos puxam os nervos como se fossem fios.
“I dug my fingernails into the rock and clung on [...] I noticed the sensations outside my body and the sensations inside. I tried to feel where the water ended and I began. I felt the edges of my body.” (Freya Bromley, The Tidal Year)
o corpo torna-se pesado, insuportável, intolerável — um campo rasgado pela batalha. naturalmente, o corpo é e sempre foi uma coisa física, material, viva. mas, quando tudo corre bem, não o sentimos. na verdade, poder-se-á dizer, o melhor sinal de que o corpo está bem é, de facto, não o sentirmos: sabemos que está ali, tocamo-lo, seguramo-lo, mas não passamos o tempo conscientes de que temos membros, que pés e mãos têm dedos — pequenos pedaços de carne pendurados que se movem —, que órgãos e ossos e músculos estão cobertos por pele. quando nos tornamos conscientes da pele, descobrimos que quase a sentimos, e assim que a sentimos, ela começa a pesar-nos, a dar-nos comichão, a assentar desconfortavelmente sobre nós, como se não encaixasse, não coubesse, não fosse o lugar dela. tal continuando, e a mente não parando, quase, quase, quase que sucumbimos ao desejo desesperado de a puxar com as unhas e a arrancar toda. ‘the greatest trick the Devil ever pulled was convincing the world he didn’t exist’, escreveu Baudelaire. suspeito que esse seja também o melhor engodo do corpo.
para mim, esta incapacidade de dormir à noite está intrinsecamente ligada ao corpo — este corpo que se tornou irreconhecível no último ano e, consequentemente, quase esquecido, mas que, ao mesmo tempo, tem mais corporalidade do que nunca: estremece involuntariamente, é sacudido por pequenos espasmos e tremores, lembra-me de que existe e deixa-me obcecada com ele, com o que foi e já não é. é como se eu estivesse fora da minha própria pele, mesmo que por poucos centímetros, e conseguisse roçar-me nela com o resto do corpo – todo o resto menos a pele na qual toco. como se o limite que a pele impunha, aqui acaba o corpo, estivesse agora fora de mim, e por isso o corpo já não tivesse limite e fosse apenas uma composição difusa, tremida, sem contornos. ultimamente, tenho acordado com o corpo tão inquieto que é como se tudo nele vibrasse; esfrego os pés um no outro para não sentir os formigueiros, pressiono os braços contra a parede, enterro as unhas nas coxas, a tentar parar a inquietude. tomo banho a meio da noite, sento-me no chão do chuveiro na esperança de que a água quente me anestesie; faço chá; leio à luz ténue a horas em que não quero estar a ler, porque só quero dormir, mas faço-o com a mesma vontade de quem vai para a forca. odeio estar acordada a essas horas — para mim, a noite não é mais do que um lugar desamparo e solidão, e eu só quero fechar os olhos. depois de deus e do diabo, tento fazer pactos com o meu próprio corpo, enganá-lo, persuadi-lo, vencê-lo.
algumas noites, o meu namorado está ao meu lado e, com infinita paciência e atenção, abraça-me até eu deslizar para a inconsciência, conta-me histórias e canções de embalar. faz exercícios de respiração comigo e diz-me que, no instante em que começo a escorregar do mundo, lhe cravo no braço duas vezes – para depois largar. como se me agarrasse às bordas do próprio sono.
dormir, acredito, não é apenas descansar — é confiar. deixar ir é aceitar que o mundo ainda estará aqui quando regressarmos. cada vez que consigo fazê-lo — mesmo que por algumas horas — parece uma glória, parece que fui perdoada, absolvida; parece que as deus do sono ainda não me esqueceram, ainda me dão alguma da sua misericórdia. e quando não consigo, e me contorço dentro de um corpo que parece que não me querer dentro dele, consigo ouvi-lo dizer, ‘ignoraste-me tempo demais. lembra-te de mim.’ porque um corpo que não descansa é, também, um corpo ainda vivo — mesmo que trema, mesmo que se devore a si mesmo, mesmo que esteja cortado e remendado. ‘ainda estou aqui’.




Mal posso esperar para te ler noutros formatos! Eu, que nunca sofri de insónia, senti mesmo o terror de como é viver com ela.
always here to hold your hand when the shadows grow big!